Não querendo dar uma de pessoa que não tem mais nada a fazer nessa vida a não ser dar conta da vida dos outros, me considero uma pessoa observadora. E ao passar todos os dias pelo mesmo caminho para ir a o trabalho, sempre avistava um rapazinho na entrada de sua casa. Isso sempre me intrigava porque se eu passava no período matutino ele estava na soleira da porta, se eu passava no início da tarde ele continuava lá e passando no fim da tarde isso tornava a se repetir. Fiquei pensando se o menino freqüentava ou não a escola, pois nunca o via de uniforme nem nada, sempre na frente de casa, ora conversando com pessoas, ora apenas observando o movimento. Acontece que um dia desses eu o vi com o uniforme da APAE e claro, fim de mistério!
Essa situação me fez pensar nesse ato comum a todos nós: a observação. Acho que a todo o momento isso acontece em nossas vidas, não é por mal, é resultado apenas da observação cotidiana e acabamos por conhecer desconhecidos. Eu achava que apenas eu era assim, que apenas eu tinha essa percepção para até definir comportamentos da pessoa observada. Mas acontece que há algum tempo atrás eu me vi no papel do observado. Fui procurar uma manicure com urgência e durante o tempo que estive no salão me surpreendi com a moça indicando a direção da casa onde eu morava há cerca de cinco anos atrás. Ela se lembrava de mim passando na frente de sua casa todas as semanas – período em que eu freqüentava aulas de piano e passava sempre pelo mesmo caminho para chegar à escola de música.
Foi uma sensação diferente, porque estamos acostumados com a nossa “onisciência”, aquilo de observar por observar e simplesmente saber (da vida dos outros). Mas se descobrir como a pessoa observada é bem diferente porque geralmente não nos julgamos como um alvo de observação alheia. Como disse isso não é feito por mal, ou com alguma má intenção, mas é no mínimo desconfortável.
Isso me levou a imaginar quantas outras pessoas como aquela manicure existem por aí, que tem consciência da minha existência sem ao menos saber meu nome ou endereço e que fazem do meu rosto não “mais um na multidão”. Isso é perfeitamente possível, tiro por mim que faço coleção de rostos que simplesmente chamaram a atenção e que se qualquer dia eu encontrar pelo caminho provavelmente não irei abordar, mas terei alguma referência na memória. Não é meio bizarro? Isso me lembra o “Grande Irmão”, livro de George Orwell que nunca li, mas que descreve uma sociedade onde todos são vigiados e tal...
Essa semana foi bem carregada de pequenos acidentes, machuquei o tornozelo, quase arranco uma unha, sem contar com um prego que quase perfurou minha cabeça! Isso também foi estímulo para me fazer pensar a respeito dos maus observadores que existem por aí, enviando energias negativas que chegam a tal ponto de afetar nossa vida e nossa segurança. Fiquei a pensar se existe alguém que me odeia, sente inveja ou deseja-me algum mal. Não sei. Até porque se eu fosse outra pessoa, não me daria o trabalho de me desejar mal ou sentir inveja, não há muito que invejar em mim...
Mas a questão não é essa, se a pessoa observa para o bem ou para o mal e sim sobre o quanto nos julgamos invisíveis para sociedade. Quero saber de você, o quanto se julga invisível? Que sensações lhe vêm ao imaginar que alguém que você não direciona a mínima importância “te conhece”, lembra de você e você nada sabe desse cidadão?




