A Paixão de Cristo


(...)
“Seguindo, aparentemente, um costume muito comum, os soldados chegaram ao centro do pátio e pararam junto à fonte circular da deusa Roma. O centurião mandou que retirassem os cavalos que estavam sendo escovados e, enquanto os ginetes desatavam as rédeas, várias dezenas de infantes de folga foram-se aproximando. A notícia da iminente flagelação daquele judeu – que se autoqualificava “rei” dos judeus – havia corrido rapidamente entre os membros da guarnição, que lógico, não queriam perder o acontecimento.
(...) Ouviram-se os cascos dos cavalos  afastando-se para uma das esquinas do recinto, e a sessão de tortura começou. Do pelotão de mercenários, haviam sido destacados  dois, especialmente robustos. Ambos tinham nas mãos diferentes tipos de flagrum, ou látego curto, de cabo de couro e metal, de apenas trinta centímetros de comprimento. De um deles partiam três correias de uns quarenta ou cinqüenta centímetros cada uma, providas nas extremidades de diversos pares astrágalos (tali) de carneiro. O outro verdugo acariciava as argolas de ferro de sua plumbata,da qual saíam duas tiras de couro, providas de um par de bolinhas de metal (possivelmente chumbo) em cada ponta.
A um sinal do oficial-em-chefe, dois soldados da escolta colocaram o Mestre diante de um dos quatro marcos, de quarenta centímetros de altura, que rodeavam a fonte e eram utilizados para amarrar as rédeas dos cavalos.(...) Com um puxão, o mercenário o obrigou a inclinar-se para o marco de pedra e depois prendeu a corda na argola metálica  que coroava a pequena coluna. A altura do Galileu  e o pequeno tamanho do marco obrigaram-no, desde o primeiro momento, a separar as pernas, o que resultou numa postura muito forçada. (...) Em meio a um silêncio expectante, o mais alto, colocado à direita do Mestre, levantou seu flagrum de cauda tríplice e lançou um terrível golpe na espádua de Jesus, ao mesmo tempo que iniciava a contagem:
__Unus!
A chicotada foi tão brutal que os joelhos do réu se dobraram, cravando-se no duro piso do pátio com um som seco. Mas, num movimento de reflexo, o Galileu voltou a erguer-se, exatamente no momento em que o segundo verdugo descarregava um novo golpe com seu flagrum bífido.
__Duo...!
__Tres...!
__Quattour...!
(...)O entrechoque dos ossinhos e das bolas de metal foram o único som perceptível durante os primeiros minutos. Jesus, totalmente encurvado, não havia deixado escapar um só gemido. Os astrágalos e as peças de chumbo caíam-lhe sobre a espádua, arrancando de cada vez algumas porções de pele. Desde o primeiro açoite, vários filetes de sangue haviam começado a correr pelo corpo, deslizando para os flancos e gotejando sobre o pavimento.
(...)Ao trigésimo açoite, o réu desabou, mantendo-se de joelhos, com os dedos fortemente presos ao aro de metal da coluna.
As costas, ombros e região lombar estavam encharcados de sangue, com inúmeros hematomas azulados e grandes como ovos de galinha. As correias, por sua vez, iam traçando dezenas de estrias, como se fossem arranhões, de tonalidade violácea. A presença daqueles múltiplos hematomas, alguns dos quais começavam a estourar, levou-me a pensar que a dor que Jesus de Nazaré suportou naqueles primeiros minutos deve ter atingido o paroxismo.
Mas, felizmente para ele, os golpes, descarregados com tanta sanha quanto precisão, foram abrindo muitos dos hematomas, convertendo as costas em um rio de sangue e, conseqüentemente, diminuindo a dor.
__Quadraginta!
O açoite número quarenta marcava os quatro ou cinco minutos do suplício. Mas, em vez de estremecer, como havia ocorrido nos golpes anteriores, o corpo do Nazareno não reagiu mais. Cívilis levantou sua vara de videira e deu por encerrada a flagelação.
(...) Embora o suplício tenha terminado no golpe de número quarenta, coincidindo, assim, casualmente, com a fórmula judaica de flagelação, a intenção de Pilatos, que acompanhava impassível e silencioso o desenrolar da tortura, era que o massacre prosseguisse. (...) Assim,  uma vez esgotado o conteúdo da vasilha, o centurião ergueu seu bastão e cada verdugo tomou seu flagrum para prosseguir o castigo.
__Unus!
Aquele novo golpe e os que se seguiram  foram aplicados especialmente nas coxas, nádegas, ventre e parte dos braços e tórax. As costas, dessa vez, foram poupadas.
Os golpes das correias, que enroscavam as pernas do Mestre, obrigaram-no a uma suprema contração dos feixes musculares, em especial os situados nas faces posteriores das coxas, que assim ficaram mais vulneráveis.  Rapidamente a pele foi abrindo-se e a conseqüente hemorragia foi muito mais intensa que a das costas.
(...)O verdugo cantou o número dezoito lançando seu látego sobre  o peito do réu. E uma das parelhas de ossinhos de carneiro deve ter ferido o mamilo esquerdo de Jesus. A intensíssima dor provocou um movimento de reflexo e o gigante se ergueu com todas as forças, ao mesmo tempo que seus dentes – solidamente apertados uns contra os outros – abriram-se , deixando escapar um gemido lancinante. Era o primeiro lamento do rabi.
(...) O golpe de número quarenta, que na realidade era o de número oitenta, se levarmos em conta os quarenta primeiros, caiu sobre um homem praticamente aniquilado. O Mestre, com o corpo deformado pelos hematomas e todo banhado de sangue, pouco se movia. Seus imperceptíveis lamentos iam enfraquecendo e, agora, só ressoava no pátio o ruído dos látegos cravando-se em sua carne e a respiração cada vez mais ofegante dos verdugos, visivelmente esgotados.
(...)Cívilis, que vinha observando o progressivo esgotamento dos verdugos, dirigiu um olhar significativo a Lucílio, o gigantesco centurião que eu havia visto no apaleamento do soldado romano. O da Panônia compreendeu a intenção de primus prior e, abrindo passagem aos empurrões entre os membros da corte, ergueu os braços, pegando no ar o flagrum do soldado colocado à direita do Mestre, quando este estava pronto para desferir um novo golpe.
A súbita presença daquela torre humana empunhando o látego de tríplice cauda foi suficiente para que ambos os carrascos se afastassem, deixando-se cair, quase sem respiração, nas lajes do pátio.
E a soldadesca, conhecedora da força e da crueldade do oficial, ficou em silêncio, atenta a todos os movimentos daquele urso.
Lucílio acariciou as correias, limpando o sangue com os dedos. Depois, colocando-se a um metro do flanco esquerdo do prisioneiro, levantou seu braço direito e lançou um golpe preciso e feroz sobre a parte baixa das nádegas de Jesus. A chicotada deve ter atingido o cóccix e a aguda dor reativou o sistema nervoso do rabi, que chegou a erguer-se por alguns segundos. Mas, em meio a grandes tremores, seus músculos falharam e ele caiu sobre os joelhos.
A soldadesca acolheu aquele calculado ataque com uma exclamação que se iria repetindo a cada chicotada:
__ Cedo alteram!  
Um segundo golpe, dirigido desta vez à parte posterior do joelho esquerdo, tirou um gemido do Mestre, enquanto os mercenários repetiam, entusiasmados:
__Cedo alteram!  
O terceiro, o quarto e o quinto golpes caíram sobre os rins.
__Cedo alteram! Cedo alteram! Cedo alteram!  
A sexta e a sétima chicotadas se centraram em cada um dos pavilhões auditivos de Jesus. E, quase instantaneamente, de ambos os lados do pescoço, correram grossas gotas de sangue. O Mestre inclinou a cabeça sobre a argola de metal e o centurião buscou o flanco direito, despejando toda a sua fúria sobre o umbigo de Cristo.
__Cedo alteram!  
(...)O nono golpe, desferido pelo colosso no dilacerado flanco direito de Jesus – e suponho que de maneira calculada sobre os músculos denteados já abertos, com a intenção de disparar assim a bloqueada respiração do réu -, produziu um som oco, como se os ossinhos houvessem golpeado diretamente as costelas.
(...) Pilatos olhou para o corpo imóvel e ensangüentado do rabi e hesitou. E sorriu com sarcasmo. Jamais me esquecerei desse gesto. Aquele demente parecia ter-se deliciado com o selvagem castigo (...) e, antes de retirar-se do pátio, ordenou a Cívilis que cuidasse do Galileu e o levasse à sua presença assim que fosse possível.”
Estes trechos foram retirados do livro Operação Cavalo de Tróia 1. Resolvi transcrever partes aqui e vocês já devem imaginar o por quê.  Hoje é celebrada a Paixão de Cristo, “o dia cristão que marca o julgamento, condenação, martírio, morte e sepultamento de Jesus Cristo”. Mas infelizmente muito se perdeu, para muitos essa data não passa apenas de um feriado, um dia de folga que as pessoas aproveitam para viajar, beber e outros divertimentos.
A parte transcrita aqui se refere apenas ao castigo aplicado a Jesus antes da Via Sacra. A postagem foi proposital, porque na verdade, por mais que guardemos este dia de acordo com a tradição, pouquíssimas vezes – ou talvez nunca – temos real noção do que foi este enorme sacrifício por amor a cada um de nós. Pensem nisso, meus amados, eu também o estou a fazer. Que não só hoje, mas sempre possamos nos lembrar e principalmente respeitar e agradecer por esse imenso gesto de amor. Uma feliz e iluminada Páscoa.


8 comentários:

  1. Eu falo mais ou menos disso no meu post, ainda que às avessas, falo da questão do proósito da data que, hoje em dia, nem se lembra mais o que significa.
    Muito bom o seu post, Viii.

    Beijos pra ti e um ótimo feriado com alegria e espontaneidade.

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  2. Post digno.
    Você tem toda razão.
    Um dia que representa o mais lindo gesto de
    amor de Jesus foi simplesmente banalizado e
    esquecido por muitos.
    Meu post de hoje também tem a ver com o assunto.
    Obrigada pela visita, volte sempre!
    Beijos

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  3. Viiii, ontem mesmo eu estava conversando com a minha mãe sobre isso. Eu disse que nunca mais queria ver o filme "A Paixão de Cristo" na minha vida, que esse tipo de filme a gente só via uma vez e ponto. É muito sofrimento. Mas nós temos que lembrar que páscoa não é somente sobre ovos de chocolate. Isso acontece com todos os feriados critãos, Natal é igualzinho. Uma pena. Vai ver é por isso que estamos nos "desumanizando" cada vez mais.

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  4. estamos perto do final... se final houver.
    o capítulo 18, é o último capítulo do livro
    quem já leu o "Continuando assim...", sabe como termina o livro.
    A todos vocês que têm andado por aqui pacientemente , lanço o desafio prometido .
    Antes de publicar o último capítulo , gostava que me dissessem como gostariam de terminar esta história de Alice e André.
    Podem publicar os "vossos finais" nos comentários ou mandar directamente para o mail
    queirozteresam@gmail.com
    Irei postar aqui todos os finais possíveis , todos os "vossos finais" :)
    Estou quase certa que algum de vós encontra o final perfeito.
    está lançado o desafio, para já espero as vossas respostas
    um grande beijo a todos !!

    Teresa

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  5. Amiga, serei muito sincera com vc, ainda não pude ler sua postagem, apesar de ela parecer muito interessante, vim apenas dizer q por motivos q explicarei depois no meu blog,
    eu tive q mudar DE NOVO o endereço dele.
    Desculpe e beijos
    http://oq-vc-procura-esta-em-vc.blogspot.com/

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  6. Viii!!! q lindo q vc escreveu!!
    legal saber q vc tbm pensa assim... são pessoas como vc q nos fazem acreditar em um mundo melhor!

    acho q as mudanças começam de nós mesmos... e nada como vc expor o verdadeiro sentido dessas datas, talvez faça com q outras pessoas se toquem!

    Bjoooo

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  7. Viiii!!!

    q lindo essa sua reflexão... muito bem colocado!!!

    o mundo esquece mesmo o real sentindo dos feriados "cristãos", e o minimo q a gente pode fazer é textos como esses!!!

    bjo

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  8. Eu me lembro de quantas vezes sentei com meu pai para assistir passagens biblicas, em cada data comemorativa pertinente, na televisão. Isso foi otimo para mim. Hoje acho que as pessoas não repetem isso e os mais jovens não demonstram nenhum interesse.

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