Há muito tempo atrás, lá pelas décadas de vinte e trita nasciam um homem e uma mulher de pais e mães distintos, mas que por coincidência ou não foram adotados por uma mesma família. Existe relatos que o pai adotivo deles era um homem amoroso para com os filhos, mas a "mãe" adotiva nutria grande antipatia pelos dois irmãos por destino. E como maneira de se livrar mais rápido daquelas duas pessoas, decidiu obrigá-los a se casarem.

E foi assim que meus avós viraram meus avós. Mesmo casados obrigados aqueles dois aprenderam a se amar - aqui são meras conclusões de uma neta porque nunca tive espaço para tratar desses assuntos com eles; da única vez que tentei perguntar algo para minha avó ela disse que simplesmente não gostava de lembrar o passado por ter sido tudo muito doloroso. Mas continuando a história, eles tiveram doze filhos. Duas delas morreram ainda crianças, os outros dez são vivos até hoje.

Minha mãe sempre conta as histórias da época de quando era criança, de como os irmãos moravam na cidade para estudar e que quando era época de colheita todos iam para o campo ajudar na colheita. Conta também de como sustentabilidade não era algo tão impossível ou improvável como é hoje, além de  - essa não podia faltar no discurso de qualquer mãe - falar que aquela foi/era a melhor época de se viver; como tudo era mais seguro, podia-se ficar até tarde nas ruas que não havia perigo , nem de marginais nem de drogas como hoje.

Contou-me também de como minha avó sofreu quando entrou na menopausa... Ela tinha uns ataques de loucura muito fortes e que certo dia, meu avô que era funcionário do governo foi até a cidade marcar uma consulta para ela em Goiânia - nesse tempo essa parte do Tocantins ainda era Goiás - só que no caminho de ida, ele e sua bicicletinha foram atropelados e ele quebrou as duas pernas, e no fim das contas quem teve de ser hospitalizado foi ele,  e não a minha avó.

Relatou desses tempos difíceis, que todos os médicos disseram que meu avô sempre tão ativo não voltaria mais a andar. E também não escondeu de mim o fato de que minha avó no auge do desespero premeditou o assassinato do meu avô e o próprio suicídio tomando todos os seus remédios de tarja preta para ter coragem suficiente de fazê-lo. Nesse dia minha mãe era a filha mais velha a estar em casa e foi ela quem impediu tudo isso de acontecer.  

Tempos depois dessa época, minha mãe e toda a sua família mudaram-se para a cidade que muitos anos depois eu iria nascer. E foi nessa cidade que - nesse período meus avós passaram a administrar uma espécie de hotel - certa vez um médico se hospedou onde minha mãe e sua família moravam e ao ver meu avô inválido disse que ele o faria voltar a andar, e o fez!

Depois disso por muito tempo meu avô andou - de pé e de bicicleta pra baixo e pra cima -, ajudou a construir a casa dos meus pais - nesse tempo eu já havia nascido - e finalmente tempos de bonança vieram, pena que eu não me lembre muito dessa época. Há nove anos atrás meu avô e minha avó completaram cinquenta anos de casado! E os pombinhos são base e exemplo pra toda a nossa família.
Todos devem imaginar que não são o casal perfeito, e não são mesmo, mas aprenderam com as adversidades a aceitar um ao outro com suas diferenças e defeitos.

Minha avó é daquelas avós clássicas, amorosa, ponderada, Generosa, rs, se ela ganha uma dúzia de ovos ela não sossega enquanto não dividi-los com seus filhos. Se você chega à sua casa em qualquer hora ela sempre tem algo a lhe oferecer, seja um cafezinho ou belo almoço. E além de tudo isso, tem uma fibra invejável. Foi com essa força de espírito que vi minha avó permanecer firme sem derramar uma lágrima sequer enquanto meus tios beiravam o desespero quando meu avô infartou há cinco anos atrás.

E ele, como ele é/foi forte! Com mais de oitenta anos meu avozinho se recuperou muito bem da cirurgia do coração e está aí firme e forte. Hoje em dia acho que uma das coisas que mais o preocupam mesmo é a saúde de minha avó; ela sofreu uns dois ou três derrames depois do infarto dele, mas ela também é muito forte.

Ano que vem, se Deus quiser haverá festa de novo, afinal serão sessenta anos de casados, bodas de diamante!! Só pra se ter uma idéia do que é isso, é só perguntar pras pessoas à sua volta quantas tem um parente com mais de cinquenta anos de casados, principalmente nos dias de hoje, tempos em que relacionamentos de um mês são eternidade.

Venho através deste dividir um pouco do orgulho que tenho de fazer parte da família dessas pessoas tão maravilhosas, e de quebra ainda ser amada por eles! =D
É uma de minhas maiores felicidades. Já tinha um tempo que queria postar algo sobre a história deles dois, pois sempre me inspira e me dá a certeza de que as dificuldades vem e vão, mas por mais sofrido que tudo isso seja, nos fazem crescer.

Haha, e o motivo maior que me fez escrever isso Hoje, não foi nenhuma data em especial, não é aniversário de ninguém nem nada, eu só estava na lotérica pagando umas contas quando vi uma senhorinha toda desajeitada colocando créditos no celular. E então (como sempre), fiquei pensando em como será minha/nossa velhice.

Definitivamente os tempos mudaram  e estamos bem no meio dessa transição toda. Eu conheci os quitutes da vovó e meus filhos provavelmente também viverão isso, maas, e os meus netos? E os seus netos??!! Será que o pimpolho ao invés de dizer pros amigos: "Minha avó faz uns doces muito gostosos." dirá: "Minha avó faz uns joguinhos de computador muito bons!"??? Se formos analizar isso com a mentalidade que temos hoje, acredito que isso soa ainda um pouco estranho, mas quem sabe daqui a dez, vinte ou trinta anos? :)
E você aí do outro lado, tem um vovô ou uma vovó chuchu beleza?^^ E já parou alguma hora pra pensar em quando você estiver na posição de avô ou de avó e não mais de neto(a)?
Beijos de feriado a todos!


9 comentários:

  1. Muito lindo e emocionante o seu post. Trazer dois exemplos assim, bem pessoais é muito legal. Faz a gente viajar e imaginar a história de forma bem real... Os conceitos são outros, Vi. Hoje em dia não somos mais como eram os nossos pais e avós. Não sei quem está mais certo, mas acho que a pureza deles os faziam mais felizes. Isso é fato! Perdemos a ingenuidade, a doçura pelas coisas simples e o prazer por pequenos acontecimentos. Queremos tudo e pra ontem. Abrutalhamos os sentimentos e isso não foi bom!
    Não tenho mais avós, e o meu finho vive longe dos avós, o que é uma pena. Não tem essa experiência que vc está tendo e que vai guardar pra sempre.

    Beijos caranavalescos!

    ResponderExcluir
  2. História interessante e reflexões idem.Adorei.Tô "seguindo". Maria Alice

    ResponderExcluir
  3. Se eu falar que não me emocionei, estarei mentindo. Linda história de vida, linda história de amor.

    Por parte de minha mãe, meus avós são separados e quando isto ocorreu, nos doeu muito. Por parte de pai, meu avó já faleceu há um bom tempo. Aí tem uma história interessante: Minha avó é descendente de espanhóis e meu falecido avó era descendente de africanos. Minha avó conta que meu bisavó ficou doido com o relacionamento, pois ele era preconceituoso e queria que minha avó casasse com o filho de um fazendeiro. Disse assim: "Mas este rapaz que você está namorando é negro e pobre!" E ela disse: "Mas ele é trabalhador e é dele que eu gosto!". Daí meu bisavô, apesar de não gostar do relacionamento, não criou mais barreiras.

    Parabéns pela postagem e obrigado por visitar o meu blog e por deixar seus valiosos comentários.

    OBS: Quando encontrar seus avós, diga que um amigo seu que mora longe mandou um abraço! A história deles é muito bonita e eu quero participar um pouco, rs. Nem que seja "online", rs. Abraços e boa semana.

    ResponderExcluir
  4. Ahh, obrigada Everton, direi sim!
    E sabe, acho isso muito bom pra nós que ainda não casamos, ou para os recém casados como você ou ainda para quem já vive essa rotina a algum tempo. Porque isso acaba por nos dar esperança, não de que tudo seja perfeito, mas que nós podemos sim fazer do casamento um relacionamento duradouro e concreto!!
    Agradeço também à Luciana por seus comentários sempre significativos para mim e à Maria Alice, nossa nova visitante!
    Obrigada

    ResponderExcluir
  5. Boa história!

    Eu sinceramente prefiro deixar de pensar como neto quando eu for avô...rs

    beijo

    ResponderExcluir
  6. Muito interessante!
    Engraçado que hoje mesmo estava
    ensinando minha avó a navegar
    pela internet e para ela é uma
    realidade completamente novaa.
    Mas e quando eu for uma avó?
    Internet vai ser coisa ultrapassada?
    Imagine o que vai ser contemporaneo
    a nossos netos?
    Muito interessante mesmo!
    Adorei o bloG! :)

    ResponderExcluir
  7. Oi, Vi, passando pra um oi da madrugada, hahahaha...
    Que fraquinho, que nada, às vezes, meia palavra basta pra se fazer presente...

    Beijos e ótimo domingo pra vc.

    ResponderExcluir
  8. Viii... meus avós casaram em 1950 e estão completando Bodas de diamante em Julho. Elel está empolgadíssimo com a festa. Ela, do jeito dela, também está feliz. Na contabilidade são: 5 filhos, 11 netos, 3 bisnetos e muita alegria. Foi graças a eles que eu saí do interior pra estudar e fazer minha vida. Eles, como em toda família italiana, são o centro de tudo e isso é muito bom porque há respeito e muita generosidade entre todos, além do imenso amor.
    Lindo teu post. Parabéns pelas tuas raízes sólidas. É o que faz de ti uma menina especial.
    Beijos meus.

    ResponderExcluir
  9. Oi, Vi.
    Fiquei toda arrepiada quando li esse post. A beleza da vida, dos relacionamentos, está na forma que enfrentamos as dificuldades. Parabéns pela família linda que você tem.
    Abraços.

    ResponderExcluir